Economia emocional: o que isso tem a ver com o mundo corporativo?

No estado de São Paulo o primeiro decreto a respeito da quarentena relativa à pandemia da COVID-19 é datado de 20 de março de 2020. Naquela época tínhamos pouco conhecimento a respeito dos procedimentos a adotar, mas logo nas semanas iniciais tive contato com uma informação que propunha vinte semanas para lidarmos com o fluxo de acontecimentos, restrições, aprendizagem e adaptação em relação àquilo tudo. Estamos próximos de completar sessenta semanas deste processo, pouco mais de um ano, e o exercício a que me proponho é refletir sobre o que já aprendemos e fazer uma conexão com a importância da economia emocional no âmbito das organizações.

Sustentabilidade, gerenciamento de crise e… comportamento humano

Certamente esta é uma ação arriscada e polêmica, se tomarmos os caminhos já trilhados em todos esses meses por profissionais das mais diversas áreas de conhecimento científico, desde a aplicação na prática cotidiana (demandas de mercado ou nas relações domésticas, por exemplo), até as reflexões nos espaços acadêmicos, entre outros.

O foco aqui é chamar atenção ao que praticar e cultivar dentre as aprendizagens acumuladas. Para isso, tomo inspiração em relatos de experiência em outras fontes e compartilho noções a respeito da sustentabilidade, gerenciamento de crise, sobrevivência e economia, tudo no campo do comportamento humano e seu desdobramento para o mundo corporativo.

Lidando com o medo

Logo depois da experiência em campo como psicóloga do esporte durante os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, busquei leituras diversas que pudessem trazer um pouco de relaxamento, após intenso foco de trabalho. Aleatoriamente numa livraria encontrei um livro que paradoxalmente ampliou e reforçou o foco. Relatos biográficos sempre me atraíram e este, em particular, traz a experiência em voo livre de uma jornalista da área da Economia.

Em Muito Além do Voo, Mara Luquet conta sua experiencia ao voar de asa delta e, ao lado do neurocientista Ruy Mara, ilustra as situações vivenciadas com muito conhecimento e boas orientações práticas sobre o que é o controle emocional e como lidar com o medo, diante dos desafios da vida pessoal e profissional.

O subtítulo do livro é Bem-Estar e Neurotecnologia a Serviço do seu Corpo e Mente, o que nos faz pensar na necessidade de equipamentos sofisticados e custo acessível para poucos, mas alerto que isso não é verdade. Desde o lançamento do livro, em 2015, até os dias atuais, o desenvolvimento e acessibilidade disso tudo tem crescido vertiginosamente.

A conta corrente emocional e os ativos da saúde

“A economia emocional diz respeito às decisões que enfrentamos a cada minuto, com todos os seus componentes de empatia, satisfação e decepção, de benfeitor e malfeitor, levando em conta os efeitos da pressão da sociedade sobre o comportamento humano.”

(Uma definição colaborativa de economia emocional)

As ferramentas de monitoramento psicofisiológico são muito preciosas ao produzir métricas sobre a performance de nossa saúde integral (e utilizadas nos contextos de alta performance), mas é importante atentar primeiro para aquilo que está disponível gratuitamente e tem explicitado intensamente seu valor nos últimos meses: as conexões humanas. Em pouco mais de duzentas páginas, Mara e Ruy trazem informações sobre estados corporais e sua relação com estresse, autocuidados e estratégias de enfrentamento e superação, iniciando com um capítulo intitulado Conta Corrente Emocional.

As práticas de valorização das experiências afetivas e o fortalecimento da autoconfiança, por meio do genuíno partilhar da felicidade, são estratégias necessárias para sobreviver aos sobressaltos do coração. Apreciar a alegria alheia com empatia e curiosidade, assim como o uso da respiração profunda, são investimentos seguros numa diversificada carteira de ativos da saúde.

O que isso tudo tem a ver com as organizações, o planejamento e o trabalho em equipe?

São exemplos como esses que nos inspiram a lembrar que as crises são mais facilmente toleradas e gerenciadas quando temos uma base de apoio forte, equipe operacional atenta, parceiros de trabalho de elevada postura ética e atuação assertiva, aliados à memória e ao acesso à bagagem de habilidades socioemocionais que indivíduos e times precisam cultivar.

Em sentido complementar, inspiro-me também no relato de Carlos Tramontina sobre sua viagem de férias ao Himalaia. No livro A Morada dos Deuses ele conta como realizou um projeto ousado e descobriu muito sobre sua conta corrente emocional, ao vivenciar o impacto do distanciamento familiar quando escolheu passar férias sozinho.

Para além do poder emocional que ele descobriu nessa jornada, o livro também nos conta muito sobre o diferencial do planejamento e cuidadosa execução de suas etapas. Embora não tivesse a companhia habitual de sua esposa e filhos em suas viagens, o andarilho saiu do Brasil junto a um grupo de outros sonhadores (pessoas desconhecidas até o embarque aéreo) e que também foram fundamentais para que as recompensas e surpresas fossem parte marcante da experiência.

Ele mostra que um bom projeto ou negócio (individual, coletivo, comercial ou social) é mais bem sucedido quando o planejamento é sustentado por ativos emocionais. Ou seja, desde o autocuidado individual, passando por lideranças, processos e orçamentos, até a execução das inúmeras etapas, o enfrentamento e superação das adversidades é mais fácil quando aliado à sustentabilidade emocional.

Dias de luta, dias de guerra

Em tempos de tantas despedidas repentinas (e evitáveis?!?) e/ou dificuldades vivenciadas no contexto da pandemia que o mundo todo está enfrentando, relembrar essas estratégias para o bem-estar e a produtividade é uma contribuição que eu gostaria de reforçar.

Como estamos lidando com nossas reservas de emergência emocional? Em outras palavras: temos cultivado as amizades e as relações afetivas (pessoais e profissionais), parcerias de jornadas com admiração e reconhecimento?

A economia emocional não é muito diferente do que entendemos convencionalmente. Estamos sujeitos a novidades e instabilidades, mas se o processo de vida estiver alinhado a uma boa estratégia, a tendência efetivamente é darmos conta do recado.

No dia 6 de abril comemoramos o Dia Mundial da Atividade Física e, no dia seguinte, o Dia Mundial da Saúde, também comemorado no Brasil como o Dia do Jornalista. Este é um período oportuno para utilizarmos a habilidade dos autores acima em traduzir no papel algo de tão precioso que a vida segue nos ensinando: o investimento e o cultivo das nossas relações pessoais são, sim, um dos mais importantes tópicos e indicadores na estratégia da vida.

Sigamos atentos ao fluxo da economia emocional! Estejamos conscientes de nossos investimentos, escolhas e estratégias, de modo a favorecer o gerenciamento dos riscos e suas consequências.

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