A hora e a vez da gestão & economia de energia

Muito tem se falado, nos últimos anos, sobre energia e as formas de otimizar seu suprimento/consumo e seus usos finais significativos. O tema vem ganhando ainda mais relevância à medida que conceitos como responsabilidade socioambiental e ESG (Environmental + Social + Governance) surgem como novas formas de levar a sustentabilidade ao centro das discussões sobre o futuro das empresas.

Mas, afinal de contas, qual o papel da gestão e economia de energia na Estratégia das empresas? Este é o tema central deste blogpost!

O que é, na prática, um sistema de gestão de energia?

No final do ano passado, a ISO – International Organization for Standardization – publicou um novo documento que traz, entre outros pontos, orientações práticas para se conceber, implementar, monitorar a aprimorar um sistema de gestão de energia (SGE): a norma ISO 50004:2020.

O foco da nova norma – e de um SGE – é adotar uma abordagem sistêmica para organizações de qualquer tamanho, segmento ou nacionalidade, que necessitem otimizar seu desempenho energético, em alinhamento com outra norma da mesma série, a ISO 50001:2018, que estabelece requisitos mínimos para um sistema desse tipo, inclusive para fins de certificação.

Nosso objetivo com este blogpost não é focar a certificação de um SGE, mas o aproveitamento das orientações que constam da ISO 50004 como base para as discussões sobre este importante assunto. Não por acaso, a ordenação do texto do post segue a mesma sequência das seções que compõem a norma, respeitando as fases de um ciclo PDCA completo.

Na prática, uma boa gestão do tema em uma organização inicia-se com sua inserção na formulação e no desdobramento do Planejamento Estratégico e posicionando-o no mesmo patamar das demais decisões e diretrizes de sua alta Direção, ao lado de outros tópicos igualmente importantes, tais como: gestão financeira, vendas, operações, qualidade, manutenção, pessoas, suprimentos e outras.

Isso assegura que o tema da gestão e economia de energia tenha, na alta Direção da empresa, o compromisso necessário para efetivamente fazer parte da Estratégia.

O alinhamento com a gestão estratégica de uma organização, levando a questão energética para a mesa de discussões, é a razão de ser de um SGE, na medida em que, com isso, asseguram-se os meios e os recursos necessários à abordagem estruturada do tema.

Por onde começar?

O início da concepção de um SGE passa necessariamente pela identificação das questões estratégicas – internas e externas – relacionadas ao suprimento/consumo de energia e seu uso final nos processos da organização, servindo de elo entre o sistema e a Estratégia da empresa.

A clara compreensão do contexto da organização é, de fato, o ponto de partida para a concepção e a futura implementação de seu SGE, bem como de sua manutenção e seu aprimoramento ao longo do tempo. Essa compreensão inclui dados e informações sobre o desempenho energético da organização, seja em termos atuais ou em relação a um futuro desejado.

Da mesma forma que o contexto, é fundamental o entendimento de quais são as partes interessadas pertinentes e suas necessidades e expectativas em relação ao SGE.

Em tempos de valorização da sustentabilidade na gestão das organizações, as partes interessadas pertinentes envolvem desde os clientes – que podem ter, por exemplo, requisitos específicos sobre uso de fontes renováveis de energia por parte de seus fornecedores – a sociedade, o governo, os órgãos reguladores, até o meio ambiente em si, normalmente negligenciado quando se elencam todas as partes interessadas pertinentes em relação a um sistema de gestão.

Outras questões que refletem as necessidades e expectativas das partes interessadas podem estar presentes na legislação aplicável vigente, em regulamentos e em outros requisitos que devem ser considerados na concepção do SGE, além de obrigações referentes a acordos entre empresas, iniciativas voluntárias, questões contratuais a atender ou requisitos corporativos

Os passos iniciais da concepção e da implementação de um SGE são complementados pela definição clara de escopo (operações, processos e atividades abrangidos pelo sistema) e de suas fronteiras (endereços, instalações físicas, unidades de negócio e outros dados similares).

Com isso, os processos necessários à gestão e economia de energia podem ser definidos e detalhados, como forma de fazer frente aos desafios do sistema que se está concebendo e implementando.

O papel fundamental da liderança

A Alta Direção de uma organização que se propõe a conceber e implementar um SGE é a mola propulsora de todo o processo, liderando e demonstrando comprometimento com relação à gestão e economia de energia e ao desempenho energético, seja a partir de suas ações e seus exemplos, seja pela destinação adequada de recursos para todas as fases do processo.

A comunicação clara, a todos os níveis hierárquicos da empresa, sobre a importância do SGE e seus benefícios, é determinante para o sucesso do projeto, integrando todos os seus colaboradores e determinando os papéis de cada um na avaliação do desempenho e na melhoria contínua do sistema.

A definição de uma política energética consistente com a realidade da empresa complementa o papel de sua liderança com relação à concepção e implementação de seu SGE, da mesma forma que é fator determinante para que se possam avaliar os resultados e se proponham melhorias ao longo do tempo. Nesse contexto, a Alta Direção demonstra, claramente e sem deixar dúvidas, seu comprometimento a com relação à gestão e economia de energia.

Em última análise, cabe à Alta Direção levar a gestão e economia de energia e o desempenho energético à Estratégia da organização, necessariamente com foco no longo prazo.

A importância de um planejamento abrangente e integrado

O planejamento do SGE especifica o que deve, em última instância, estar contido em seu bojo para a melhoria do desempenho energético da empresa e sua eficácia no que se refere a atingir os objetivos pretendidos.

O planejamento do SGE baseia-se em sete tópicos complementares:

  • Identificação e classificação dos riscos e oportunidades, com base em seus potenciais impactos no funcionamento do SGE e no desempenho energético da organização, priorizando medidas de controle e ações de contingência que façam frente aos riscos considerados significativos.
  • Estabelecimento de objetivos, indicadores de desempenho e metas de gestão e economia de energia, bem como de planos de ação para alcançá-los, colocando em prática o compromisso representado pela política energética da organização e fornecendo a direção para ações de melhoria e a alocação de recursos necessários para alcançá-las.
  • Análise crítica do suprimento/consumo e dos usos finais significativos de energia nos processos da organização, incluindo as diversas formas e fontes utilizadas (calor, vapor, biomassa, eletricidade, combustíveis fósseis e outros).
  • Determinação de potenciais oportunidades para melhorar o desempenho energético (exemplos: substituição de equipamentos ou sistemas existentes por outros de maior eficiência; priorização do uso de luz natural em detrimento de iluminação artificial; substituição de lâmpadas convencionais por suas congêneres de LED; adoção de procedimentos operacionais mais adequados; otimização de padrões, sistemas ou processos).
  • Estimativa de suprimento/consumo e usos finais significativos de energia no futuro, levando em consideração as mudanças previstas nas instalações, equipamentos, sistemas e processos.
  • Definição da linha de base de energia, como forma de quantificar o desempenho energético da organização ao longo de um período específico, permitindo aos seus gestores uma avaliação das mudanças no desempenho energético entre os períodos selecionados, bem como os cálculos sobre a economia efetivamente obtida a partir da implantação das ações planejadas.
  • Determinação das formas de aquisição de dados confiáveis para uma adequada e abrangente avaliação do desempenho energético da organização.

Provisão de recursos

A provisão dos recursos necessários à concepção, implementação, monitoramento e aprimoramento de um SGE é papel indelegável da Alta Direção, que, obviamente deve considerar a disponibilidade desses recursos e sua capacidade em provê-los conforme sejam necessários.

Nesse contexto, a provisão de recursos para capacitação das pessoas, cujas atividades afetam o SGE e o desempenho energético da organização, deve ser prevista e avaliada/reavaliada periodicamente. Da mesma forma, devem ser previstos recursos para comunicar e conscientizar as pessoas quando à importância do sistema.

Complementarmente, os recursos para a gestão de toda a informação documentada (procedimentos, instruções, registros) necessária ao funcionamento e ao monitoramento do SGE são um importante tópico para uma adequada implementação e um efetivo controle do sistema como um todo.

Controle operacional

Um controle operacional robusto é crucial para assegurar que os usos finais significativos de energia sejam monitorados e que os processos sejam operados e mantidos de forma eficaz, proporcionando também os meios necessários para a identificação e o relato de problemas, bem como o estabelecimento de procedimentos operacionais por parte das áreas de manutenção que visem a indicar potenciais pontos para a redução dos custos com energia.

O controle operacional é fonte de oportunidades de melhoria do desempenho energético de uma organização, incluindo a possibilidade de redução da variabilidade nesse desempenho causada por fatores diversos.

Na concepção e implementação do SGE devem ser levados em consideração os controles operacionais e de manutenção já existentes, sendo possível identificar oportunidades de melhoria à medida que a implementação evolui. Nesse sentido, devem ser atualizados com novas especificações ou melhorias de processos voltados à gestão e economia de energia.

Projetos

Da mesma forma que ocorre com a operação e a manutenção, projetos são uma grande oportunidade para identificação de possíveis melhorias do desempenho energético, aproveitando dados e informações de engenharia, monitoramentos e medições, instrumentação, técnicas operacionais e novas tecnologias.

Dessa forma, a organização obtém melhorias de desempenho energético, ao mesmo tempo em que moderniza equipamentos e processos, melhorando a produtividade e a competitividade de seus negócios.

Aquisições

O SGE deve apoiar a indicação de oportunidades de aquisição de equipamentos, produtos, materiais, insumos e serviços que possuam maior eficiência energética, suportando a tomada de decisão de setores como, por exemplo, a área de Suprimentos da organização, desde a especificação dos itens e serviços a adquirir, até seu recebimento, sempre com foco na melhoria do desempenho energético como um todo.

O envolvimento dos responsáveis por especificação e aquisição desses itens e serviços pode levar em conta critérios para avaliar especificamente seu consumo de energia, considerando um conjunto de tópicos como, por exemplo, o ciclo de vida de um dado produto, o impacto esperado de um material no desempenho energético geral do SGE, a frequência de falhas de um dado equipamento, a classificação de eficiência energética de equipamentos e certificações de terceira parte.

Na outra ponta do processo, encontram-se os fornecedores de energia e a avaliação das opções para sua aquisição (mercado livre, demanda contratada e outras). Normalmente de alta complexidade, a atividade de avaliar as opções de fornecimento de energia envolve muitos riscos e pode ser interessante conduzi-la com o apoio de especialistas, especialmente em função dos altos retornos que uma negociação bem realizada pode trazer à organização.

Avaliação do desempenho energético e do SGE

A avaliação do desempenho energético e do SGE, a partir do monitoramento, da medição e da análise de dados e informações, propiciam à organização verificar se os investimentos realizados trazem os resultados esperados, especialmente com relação aos objetivos e metas estratégicos referentes ao tema.

Um tópico a ser considerado na avaliação de desempenho do SGE é o grau de conformidade da organização com requisitos legais relacionados à energia e outros requisitos, sendo importante haver, desde a fase de concepção do sistema, a identificação clara desses requisitos e suas obrigações derivadas, bem como da forma de avaliação periódica de seu cumprimento.

Por sua vez, auditorias internas ou externas do SGE podem ser ferramentas eficazes no monitoramento do funcionamento do sistema e seus elementos e do desempenho energético da organização como um todo, sobretudo se forem realizadas de forma integrada com relação a outros temas, como, por exemplo, a gestão da qualidade (ISO 9001), a gestão ambiental (ISO 14001) e a gestão de saúde e segurança ocupacional (ISO 45001).

Análise crítica pela Alta Direção

A análise crítica do desempenho do SGE por parte da Alta Direção da organização é, por definição, o instante em que a gestão e economia de energia é avaliada como parte da Estratégia, sendo um importante momento para a verificação de seu efetivo alinhamento com o Planejamento Estratégico da empresa e os ganhos obtidos com a implementação do sistema.

A pergunta fundamental a fazer é se o SGE está entregando e sustentando as melhorias planejadas para o desempenho energético da organização, com foco na garantia da adequação, suficiência e eficácia do sistema.

Finalmente… as melhorias!

O tratamento de desvios, não conformidades e outros problemas detectados propicia a conclusão das fases do ciclo PDCA que está por trás da concepção, implementação, monitoramento e aprimoramento de um SGE.

Para tanto, problemas devem ser gerenciados de modo que, a partir da identificação de suas causas, sejam tomadas ações que eliminem tais causas e evitem sua reincidência.

A essência desta última fase do ciclo reside em promover, apoiar e dar sustentação a melhorias de desempenho energético e à obtenção dos resultados esperados pela organização quando da definição dos objetivos de gestão e economia de energia, em alinhamento com sua Estratégia.

Com isso, espera-se a retroalimentação de dados e informações gerenciais, o que permitirá a conclusão do ciclo PDCA e o início de um novo ciclo, aprimorando assim a forma pela qual a organização realiza a gestão e a economia de energia no seu dia a dia.

Quer conhecer como a EDX Consultores associa a gestão e economia de energia à Estratégia de seus clientes? Deixe sua opinião ou dúvida no campo abaixo. Teremos o maior prazer em conversar com Você a respeito!

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